Sábado, Agosto 02, 2008

__No encosto dos olhoS__


dei às palavras a água dos dedos
entreguei a voz à eternidade do vento
todo o amor que cobri na intimidade dos braços
o mapa de um verbo que incandescia a medula
enrolei as lágrimas no sangue da tarde
acompanhei com o coração o bailado dos barcos
os poros que tecíamos no queimar dos olhos
o suor pingava
era rubro - adoçicado
sabia a néctar de morango
ensaguentava a pele
e manchava a seda como a lágrima de uma carta
dei-me assim
por entre os soluços e o interior da tua boca
na sombra derramada pela primavera
aquele denso paladar odor e asa em forma de concha
naquele tempo
as sementes do luar destilavam na erupção das mãos
e pedias-me para morrer contigo
porque a morte era uma cerimónia por onde nascíamos

Domingo, Junho 08, 2008

__Uma insónia - um regressO__


Descalço-me frente à respiração das palavras. No bolso da alma guardo as metáforas como um fruto caído nas terras da memória. Aqui estou. Aqui chego sem saber que margem do coração tenho mergulhado nas mãos, mas chego. A saudade é uma ferida aberta, longe estive, mas nunca totalmente. É este o meu pátio - solo de mobilidade esvaindo para o interior dos olhos. Tudo isto - êxodo e sismo no bico de uma gaivota. Falem-me dos brancos desenhos das sombras. Mas por agora falem-me de um rosto, melodias seculares e da marcha das pombas, falem-me do movimento que harmoniza uma pequena noz - coração. Falar-vos-ia de como é côncava a lágrima num olhar saturado por um golpe da solidão. Mas, não hoje. Dir-vos-ia de como a indiferença humana contracena como um sorriso no perfil do dia - cada vez mais, mas não hoje. Hoje venho na lentidão de um voo a roçar os alvos lençois do ser, venho, chego como um aprendiz, viajante longamente chorando com a alma nos degraus da inquietação. Esta pele de palavras rodeia e esbraceja os lábios como liquidez acesa dentro dos olhos do coração. Não há silêncio que aqueça a alma. Não há distância que adormeça o quarto. Mas há uma voz no suspiro de uma flor que se espalha no vento. Há um gesto para sempre guardado numa estrela - claridade que pinga como lareira nos dedos. A harmonia é um beijo polvilhado de aveludada nudez. Insónia que muitas vezes alastra como Lua afiada na parede dos poros. Aqui sinto, tacteio o cetim que habita esta casa, meu corpo. Regresso. Chego com os passos acendidos, mas chego chovendo por entre duas palavras, duas mãos e uma flor a estalar para fora do peito...

Sexta-feira, Maio 02, 2008

__Uma voz embrionáriA__


Implodi numa fotografia, quotidiano e luz. Desci a escada nocturna, procurei no escuro, encontrei um cesto. Uma flor redonda. Um feto. É imensa a carícia quando esta trepa a mão dos olhos. Húmida, íntima polpa. Saibam alguns, um homem é eterno quando amanhece no espelho da bolha que suspensa, germina na pálpebra de uma mulher. Quão magnificente escarpa - tumulto e feição. Toda esta côncava metamorfose é como um líquido corpo - sorriso de um sonho. Com os dedos pinto de verde a solidão, aqui sou Deus e Rei. Aqui, o clarão do meu olhar trespassa a evasão das pombas, aqui teço nas asas dos anjos flores, esperança, enleios de mágoas, muitas vezes - horrores. Já o disse noutra morada...no corpo de um feto moram dois beijos, um cobrindo docemente de rosas o coração, outro colorindo-o com a vertigem da paixão...penso que hoje, tudo isto é uma vertigem de sentido. Morrer de amor está agora ao alcance de um voo, quem sabe, palmo de gravidade. Acreditem os magros pássaros, um homem sombrio, é um homem que se abriga nas silvas da alma - descalço. Habita a humidade da lama - sua dor. Roça a seiva, láminas do ser - boca. Mas, prefere morrer na nudez do seu ser que vaguear nos paralelos do medo - ilusão. Os tímpanos de um homem só o são, quando a sua voz começa a parecer-lhe uma cascata de madrugadas no arrasto dos limos - marés. Todo o resto é ruído de superfícies, almas difusas - furtivas algas. Aqui estou - esperando o abrir de um feto. Seu gesto. Seu lábios escorrendo nos braços da retina. Há um delírio, cortejo no modo como dorme um feto. Também ele debruça-se sobre a liquidez do verde, todo ele, ciclo incansável. Tudo isto é um gesto a transgredir, roçar a intimidade de uma paisagem embrionária....

Domingo, Abril 13, 2008

__A impaciência do desejO__

Próximo é o cenário, rosto e rosto manobrando o túnel dos veios - olhar. Impacientes despem as mãos a paisagem das asas rente a esta íntima gota - viajante lábio. Adeja o cílio por entre a fresta do vento que flutua no teu rosto, linha de um poro que estremece teu ventre. Cai a noite - esta, por entre a cortina do pensamento onde aterro como simples poeira numa crosta em erupção - tremura. Vibro - verdade, como poroso ser inspirando esta equidistância , qual porvir de lonjura, tudo isto é uma branda forma de expirar. Digo, os caminhos nocturnos fermentam a saliva matinal de tudo aquilo que rodeia o teu corpo em arrepio - rósea intrusa - tu. Paira na mão de um homem a mais pura seiva, saliva e elixír de um ventre brincando por entre seus dedos -líquida evasão. Seio, qual montanha de pele, antes fruto que se pressente na boca habitando a doce hemorragia da língua. Concede-me a eterenidade na extremidade das unhas, íris e pólen percorrendo o doce cativeiro do desejo, cobre-me, cerca-me como fogo e madeira consumindo a penumbra paisagem - este jogo de águas. Enterra-me bem no fundo desse orgasmo que despe a seda da tua nítida pele. Deixa-me lá ficar. Sentir essa solitária intensidade como múltiplo latejo de mistérios na angústia que descompassa a mais quente respiração - brisa. Negro é o rumor que cobre as tuas mãos, lágrima inquieta - volúpia. Ah! Noite amante, tudo isto lambe o ventre da sensação que assalta o coração. Entramos, ardemos como voo cabendo no alívio dos olhos - útero e ave. Tudo isto amassa, foge como lebre de rubras geometrias e na boca, escorre da palavra este pincel de húmido luar - receio. Mas, tudo isto também fica subindo as pernas como um tango em sobressalto. Tudo isto que nasce no coração, nasce para morrer em alto mar - desejo. Todo este precipício de gramática é líquido veneno, silêncio que custa à boca...
Dearly Beloved - Kaoru Wada